sexta-feira, 26 de março de 2010

De volta à ilha virgem

              Quando criança, uma impúbere mesmo, cheia de sonhos utópicos e inocentes, imaginei, em uma tarde ensolarada e em estado de completa solidão, uma ilha, provavelmente no continente Africano, virgem, cheia de animais e palmeiras gigantescas, onde eu me alimentaria basicamente de bananas, mataria minha sede com água de coco e chegaria lá numa despretensiosa jangada, com roupas de verão e lá ficaria, às voltas com a beleza e imaginação que tal lugar me proporcionaria. 
                 Hoje, sem qualquer razão aparente, lembrei deste lugar feliz e distante, guardado na minha memória infante.
                    Vi que hoje eu atribui a esse lugar, no começo da minha vida adulta, não a um continente distante ou uma ilha selvagem. Percebi que este lugar se encontra no vasto território da minha mente, dos pensamentos mais íntimos que alguém possa ter, da minha subjetividade.
                        Às vezes eu quero me distanciar de tudo e de todos, e repousar em um lugar tranqüilo onde ninguém me perturbe, um local de paz, uma paz que a humanidade ainda não saboreou em sua plenitude, intocável por qualquer ação ou omissão humana, onde os meus desejos inconfessáveis possam soltar um grito liberto, sem que alguém faça qualquer juízo de valor ou menção para outros.
                          Onde eu possa me afastar sem culpa de estar ferindo os sentimentos dos que eu amo, sem ter que dar explicações, sem emitir a menor satisfação de onde vou, e dispensar o relógio com suas cobranças acerca do presente e do futuro. 
                            Quando lembro deste lugar que outrora imaginei em estado de inocência, no leito da minha infância, naquele dia as preocupações eram menores (às vezes nem mesmo existiam!) vejo que esses momentos de introspecção hoje são ainda mais importantes...
                         O mesmo relógio que me cobra providências, me lembra do que podia ter feito, me traz arrependimentos e alguns consolos, mas sempre me lembra das quedas e superações.
                               E por que retornar àquele lugar? Qual a razão de querer absorvê-lo?
                              Porque mais do que lembranças, a ilha inexplorada que concebi em minha infância me faz clamar por minha tão estimada identidade.

Um comentário:

SAMELLY XAVIER disse...

Olá, minha querida! Muito bonito teu texto. E o bendito relógio que não pára de fazer tic-tac dentro da gente, né? E a gente sempre a querer nossa Pasárgada pessoal pra ir simbora voltar a ser criança - este ser que desconhece relógios e horários, rs.

Beijo recitado e apareça sempre no meu blog!